13 Reasons Why 2: Análise sem spoilers

Análise
A série da Netflix 13 Reasons Why voltou, aprofundando temas importantes e com mais polêmicas.

Ano passado quando 13 Reasons Why foi lançada, um debate muito acirrado se estendeu pelo mundo. A internet estava em polvorosa, dividida se a série havia sido relevante, ou se apenas foi irresponsável com seu conteúdo. O tema central é ainda um tabu em nossa sociedade. E os temas adjacentes são minimizados, ou ignorados muitas vezes. Suicídio, bullying, problemas emocionais, assedio sexual, estupro… Isso foi um pouco do que a série abordou em sua primeira temporada. Isso é o que a série continua trabalhando em sua segunda temporada. Se você ainda não viu a primeira temporada, pode ler aqui um pouco de nossas impressões sobre ela.

Talvez alguns pontos discutidos aqui possam ser considerados spoilers leves, mas fiquem tranquilos que não será revelado nenhum detalhe do enredo da série.

A série começa com diversos avisos sobre o conteúdo forte dos episódios. Tanto avisos escritos, quando uma mensagem do elenco (que aparece apenas no primeiro episódio). Mesmo com o alerta de que pessoas sensíveis, ou que já passaram por situações parecidas devam evitar de assistir o seriado, isso não nos prepara para tudo o que vem. A maioria dos episódios não traz cenas tão explícitas, apesar de todos abordarem assuntos importantes e pesados. Mas no final, no episódio final, há uma cena tão brutal, tão violenta, que mesmo sendo mostrada indiretamente é pesada demais.

Mas vamos começar do começo para entendermos melhor as coisas. Apesar de abordar vários temas, há um tema central que é mais aprofundado. O assunto chave da primeira temporada foi Bullying, e o da segunda temporada é assédio sexual e estupro. Nossa sociedade ainda reluta muito em discutir temas como esses, e muitas vezes as vítimas levam a culpa. Quase sempre levam. E a série trabalha bem isso. O medo da vítima em se expor. O desespero de pensar que ninguém acreditaria nela. O receio de ser rotulada e sua vida se resumir a isso. A solidão. A culpa.

A cultura do estupro é posta a baila durante os episódios. A forma como os abusadores muitas vezes são protegidos pelo sistema e/ou por seus amigos. A forma como as pessoas são programadas para se questionar se uma vítima de estupro realmente está dizendo a verdade. A mulher que é posta como “louca rejeitada” para que sua história seja deslegitimada. E a forma de como isso pode se tornar uma bola de neve se não for resolvida. Esses pontos são importantes para serem debatidos, sobretudo nos dias de hoje. Parece exagerado, mas em pleno 2018 ainda é preciso lembrar que uma relação sexual sem consentimento é errada.

O tema do abuso sexual leva a outro tema: o do silêncio “protetor”. Esse silêncio não é o que protege a vítima, mas o agressor. O silêncio de quem viu algo ruim acontecer, mas prefere se calar para não perder uma amizade, ou para não ser malvisto na turma. Mas até onde a consciência de alguém permita que ela viva em paz sabendo que poderia ter ajudado e não ter feito nada. Ou pior, o silêncio de conivência. O silêncio que tenta abafar a voz de quem quer falar. O silêncio de quem quer proteger seus maus hábitos, porque sabe que são maus, mas ainda assim não os deixa de praticar.

O silêncio muitas vezes sufoca, sobretudo quem precisa de ajuda. Muitas vezes adolescentes não sabem como pedir ajuda e se silenciam. Em diversos momentos da série é possível ver que, por mais que a pessoa se sinta só, sempre haverá alguém pra ajuda-la caso queira romper o silêncio. E a quebra desse silêncio é o que pode libertar a pessoa de tudo o que sente. Libertar para uma vida mais leve, onde suas feridas podem cicatrizar.

Mais uma vez o bullying apareceu em 13 Reasons Why. Valentões sempre tentando intimidar os mais fracos. Pode parecer um tema repetido e cansativo, mas ele ainda é tão atual e tão presente. Como pode algo que é discutido há tantos anos ainda ser um problema tão grande. Não levamos a sério. Não escutamos as vítimas. Minimizamos a situação. É por isso que o Bullying está cada vez mais enraizado na nossa sociedade. É por isso que ele continuou com Colégio Liberty. E a intimidação quase levou a uma tragédia sem tamanho.

A tragédia foi desencadeada pela cena que foi, na opinião de muitos e na minha, a mais brutal da temporada. Particularmente eu não consegui assisti. Assim como a cena de Hanna na banheira na primeira temporada, essa cena da segunda é uma que pode ativar muitos gatilhos traumáticos e impressionar (negativamente) muita gente.  Desta vez não foram tão explícita quando a cena da primeira temporada, mas também não foi indireta demais. Nem sei se há uma forma de mostrar aquilo indiretamente. Talvez não precisasse estar ali. Foi muita violência, muito sofrimento, em tão pouco tempo. Será que a série precisa tanto de cenas apelativas como essas?

E por falar nessa quase tragédia, a impressão que fica é que os produtores tentam forçar uma nova temporada. Mais uma temporada para discutir polêmicas em uma escola. Na sociedade. Não nego que não faltam temas relevantes para serem tratados, mas será que valeria a pena mais uma temporada de 13 Reasons Why? Mesmo abordando temas tão relevantes, para mim uma segunda temporada já foi algo desnecessário. Levando em consideração o estilo da série, uma terceira seria demasiado. É querer extender demais algo que foi muito pesado desde a primeira vez.

 

Aline Costa

Professora que flutua entre as Letras e a História, Maga em Azeroth a serviço da Aliança e na hora vagas curte um Hearthstone. Gosta muito de seriados e livros, e tem uma leve queda por literatura fantástica e épica.