O Dia Internacional das Mulheres e o processo de dessexualização da Marvel

HQ

Hoje é o dia internacional das mulheres, pode ser que considere essa data como um motivo para celebrar. Não deixa de ser, já que ao longo do tempo conquistamos muitas coisas que antes eram apenas sonhos. Porém, ainda há muito que lutar. Basta olharmos para o ano passado em que as denúncias de assédio em Hollywood foram incontáveis, onde ainda precisamos nos posicionar e reivindicar aquilo que é nosso por direito como respeito.

Para esse dia, queremos refletir um pouco sobre representatividade e objetificação do corpo da mulher. Não seria preciso tanta luta para defender o nosso corpo em um país – e mundo – mais igualitário. Acontece que durante muito tempo, salvo algumas obras, as mulheres estiveram presentes em todo o tipo de literatura como alguém submisso e sexualizado. Não que hoje seja muito diferente, mas há uma esperança.

Em 2011, a Marvel tomou a decisão de cancelar a revista que seria protagonizada pela X-23. Não contava com um bom número de vendas então, era esperado que a HQ fosse cortada, o problema veio depois. Não havia nenhuma publicação em banca com um personagem protagonista do sexo feminino. Foi quando a editora lançou a fase Nova Marvel!, relançando a sua linha inteira de histórias em quadrinhos.

Nessa época, de 2012 até 2015, não apenas uma, mas 16 histórias foram protagonizadas por mulheres foi lançada sendo: Defensoras, Mulher-Hulk Vermelha, Capitã Marvel, Journey in to Mistery, X-Men, Viúva Negra, Capitã Marvel, Mulher-Hulk, Miss Marvel, Elektra, Thor, Tempestade, Angela, Gwen-Aranha, Teia de Seda, Mulher Aranha e Garota Esquilo. As revistas foram um sucesso, com direito a elogios da crítica e indicações a diversos prêmios.

Já em 2015, a nova fase da Marvel foi lançada com o nome de Totalmente Nova e Diferente Marvel. Contando com 22 publicações tendo mulheres como protagonistas, muitas sendo uma continuação da Nova Marvel!. Mesmo assim, a editora passou por muitas polêmicas.

Em uma manifestação sobre uma capa alternativa de Milo Manara para estampar a revista da Mulher-Aranha, extremamente sensual, Alex Alonso, editor-chefe da Marvel comentou que aquela era a visão do autor e contou que cerca de 30% do mercado de quadrinhos é formado por mulheres e 20% da linha de HQ’S da Marvel é protagonizada por personagens do sexo feminino.

Parece um número pequeno, mas que toma proporções enormes. Assumindo a Nova Marvel! como uma fase de mudar, a Marvel adotou uma nova postura sobre a abordagem em relação as personagens femininas. Não era preciso somente dar destaque para elas, mas encontrar uma forma de inspirar as meninas que consumiam as revistas. Foi quando a editora chamou a escritora Kelly Sue DeConnick para escrever a revista de Carol Danvers, antes Miss Marvel com um maiô e agora Capitã Marvel em um uniforme muito melhor.

A partir disso, vários lançamentos foram surgindo e praticamente todas as heroínas começaram a ser dessexualizadas, o que quer dizer que foi retirada aquela sensualidade exagerada sobre o corpo feminino. Não é apenas sobre todas essas mudanças na Marvel , mas quais os impactos gerados.

Cada vez mais garotas estão crescendo e descobrindo o mundo geek. São diversas pequenas e grandes mulheres que precisam estar representadas nas heroínas e vilãs que elas acompanham a cada história. Além de entender que para vencer as batalhas, sejam quais forem, não é preciso ter um corpo extremamente sexualizado e objetificado.

Aos poucos tudo está mudando, atualmente a Marvel vem buscando agregar diversas escritoras para trabalhar com as HQs, muitas da literatura ou de mídias independentes. É o caso da Gabby Rivera, uma escritora latina e LGBT; G. Willow Wilson, escritora muçulmana e outros nomes como Margaret Stohl, Rainbow Rowell, Kelly Thompson, Mariko Tamaki, Jody Houser, Christina Strain e muitas outras que estão buscando seu espaço.

Muita coisa já melhorou, mas também ainda há muito o que melhorar. Precisamos de mais participação feminina. Inclusive para remar contra uma parcela que ainda acredita naquele velho esteriótipo de que o mundo nerd é só para homens.  A demanda e a busca por essas histórias podem ter influenciado nessa decisão da Marvel, mas não há como negar que é um passo a frente para uma maior representatividade feminina e uma forma de fazer com que outras empresas, editoras, produtoras e aquilo que gira em torno da cultura pop pensem sobre.

Hoje é dia 8 de março, dia internacional da mulher. Temos algumas razões para comemorar, são por passos como o da Marvel e de todas aquelas que marcham todos os dias contra o machismo, o assédio e toda forma de violência contra o sexo feminino, que vamos conseguir chegar a um ponto ao menos próximo da igualdade. Não sabemos o futuro, mas podemos começar a escrever agora o nosso presente. Use o dia de hoje para pensar sobre cada uma das mulheres que conhece e como elas são heroínas da própria história.

Celina Campos

Médica, viciada em livros, filmes, séries, jogos e mangá.